HOMO LUDENS
HOMO LUDENS
O livro que teve a audácia de dizer que a civilização inteira é brincadeira levada a sério
Imagina a cara de pau.
Em 1938, um historiador holandês chamado Johan Huizinga olhou pra humanidade inteira — Homo sapiens, o "homem que pensa", Homo faber, o "homem que fabrica" — e disse: peraí, falta um nome na lista. E se a gente for, no fundo, Homo ludens? O homem que joga, que brinca. Não como um detalhezinho fofo da nossa espécie. Como o motor escondido por trás de tudo o que a gente chama de civilização.
E ele não estava brincando (ok, talvez um pouco).
Huizinga escreveu esse livro às vésperas da Segunda Guerra Mundial, depois de discursar sobre o tema em Zurique, Viena e Londres. E fez questão de bater o pé numa coisa: o título não é "o jogo NA cultura", como seus próprios tradutores queriam corrigir. É "o jogo DA cultura" — o genitivo importa, e muito. A tese dele não é que existe jogo dentro da cultura, ao lado de coisas sérias. É que a cultura, ela mesma, nasce com cara e jeito de jogo.
O jogo é mais velho que a civilização
Primeira cutucada de Huizinga: antes de existir sociedade humana, cultura, moral ou lei, os bichos já brincavam. Cachorrinho já convida o outro pra brincadeira com um ritual de gestos, já finge zangar-se sem realmente morder. Ou seja: o jogo não foi inventado por nós. Nós é que fomos pescados por ele.
O que faz de um jogo, um jogo?
Huizinga passa boa parte do primeiro capítulo caçando a essência disso — e recusa toda explicação fácil ("é descarga de energia", "é treino pra vida adulta", "é instinto"). Pra ele, isso tudo é raso demais. As características que sobram, depois da poeira baixar, são estas:
• É livre. Jogo por obrigação já não é jogo, é imitação forçada.
• É uma evasão da vida "real" pra uma esfera temporária com regras e lógica próprias — o que hoje chamaríamos de "círculo mágico" do jogo.
• É desinteressado — não serve pra satisfazer nenhuma necessidade imediata.
• E, apesar de tudo isso, pode ser levado com uma seriedade absoluta. "A inferioridade do jogo é sempre reduzida pela superioridade de sua seriedade", escreve ele — sim, seriedade e jogo não são opostos, viram a mesma coisa quando o jogador está de verdade dentro do jogo.
O detalhe mais gostoso do capítulo 1
Huizinga conta a história de um menino de 4 anos brincando de trenzinho com uma fileira de cadeiras. Quando o pai vai lhe dar um beijo, o menino avisa: não beija a locomotiva, porque senão os vagões não vão acreditar que é de verdade. Uma criança de 4 anos, sozinha, já sabe administrar a fronteira entre o faz-de-conta e o real — e ainda assim levar o faz-de-conta a sério igual gente grande. É a prova viva, no bolso de qualquer um que já foi criança, de tudo que o livro defende.
E depois o jogo sai do playground e invade tudo
É aí que o livro fica realmente ousado: Huizinga passa os capítulos seguintes rastreando o elemento lúdico dentro do Direito, da Guerra, do Conhecimento, da Poesia, da Filosofia, da Arte — e termina perguntando, sem papas na língua, o quanto ainda sobra de jogo na ciência e na cultura do seu próprio tempo (e, por extensão, do nosso). Ele chega a provocar: será que a ciência moderna, com seus métodos, suas regras fixas e suas comunidades de iniciados cheias de "-ismos", não estaria jogando um jogo só seu, sem nem perceber?
Por que isso importa pra você, professor de ilustração que monta TCG com os alunos
Porque Huizinga te dá munição filosófica pesada pra defender algo que você já sabe na prática: transformar o semestre inteiro numa coleção de cartas, com regras, prazos e um sistema de XP, não é "facilitar" o ensino nem fugir da seriedade acadêmica. É recolocar seus alunos exatamente no lugar onde — segundo um historiador levado a sério há quase 90 anos — a própria civilização aprendeu a se organizar: dentro do círculo do jogo, jogando pra valer.
Ficha da obra
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. Tradução de João Paulo Monteiro. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000 (4ª edição). Título original: Homo Ludens - vom Ursprung der Kultur im Spiel (1938).
Coleção Estudos, dirigida por J. Guinsburg.
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